quarta-feira, 11 de maio de 2016

As pessoas que encontramos no caminho

Como já disse, viajar é muito bom, um remédio que sempre recomendo para a vida de todo mundo. É maravilhoso visitar lugares diferentes, descobrir histórias e História, conhecer novas culturas, provar comidas desconhecidas, andar despreocupado. Além de tudo isso, uma das melhores coisas de viajar são as pessoas com quem vamos cruzar. Podem tornar-se amigas ou não, mas de alguma forma marcam a nossa caminhada, compartilham com a gente momentos únicos e ajudam a mudar a nossa visão do mundo. Escrevi o texto abaixo em 2010, sobre duas pessoa que conheci, dentre tantas, e que marcaram a minha vida.

Viajar, em todos e nos mais profundos sentidos dessa palavra, mudou a minha vida. O que quero dizer é que não basta ser um turista, você tem que ser um viajante. Quando me tornei uma viajante passei a ver tudo com outros olhos, as histórias, os prédios, as paisagens, os hábitos, as comidas, as músicas, as danças. Me tornei mais tolerante e confiante (especialmente depois que passei a viajar sozinha) e me dei conta de que os "cartões postais" são apenas detalhes. O que vale mesmo são as experiências que você vive, as pessoas que você conhece. E é isso que me fez querer botar a mochila nas costas e viajar mais e mais. 
Algumas pessoas que conheci vou levar pra vida toda. Uns como amigos muito próximos, outros como aqueles que só vou falar de vez em quando, mas que também são especiais e vão ficar pra sempre. De boa parte não peguei contato algum e provavelmente não vou ver nunca mais, o que não diminui a importância que tiveram na minha jornada. Tem uns até que espero não encontrar novamente, porque não estamos livres de conhecer pessoas chatas, mal educadas e inconvenientes numa viagem. Só que elas também me fizeram aprender algo. E há, além disso, aquelas com as quais eu nunca troquei uma palavra; só as observei de longe, num momento tão especial, que elas nem imaginam que sempre estarão nas minhas lembranças, um ser que mora do outro lado do mundo e que elas não têm idéia de que exista. 
Tem umas que eu conheci nos albergues, companheiras de quartos, ou de café da manhã, ou de bar. Tem outras que conheci em filas, sentada numa praça, nos trens, nos aviões, nos free walking tours. Tem muito brasileiro que conheci na internet, antes de partir, e encontrei por lá. Foi muita gente, e freqüentemente tenho que fazer esforço pra lembrar de (quase) todas.
      

Senti vontade de compartilhar (com quem quer que leia isso) a experiência de ter conhecido duas pessoas na minha viagem à Europa. Uma é daquelas que eu provavelmente nunca mais verei, e a outra eu falo de vez em quando.

A Maria era uma senhora (de uns 60 anos) polonesa que encontrei num trem de Berlim a Cracóvia. Ela estava sentada ao meu lado, e eu a ajudei a colocar a mala no bagageiro. Acontece que ela havia sentado no lugar errado, o assento correto era o da frente e rolou uma pequena confusão entre ela e a adolescente "dona" do lugar. A Maria então foi pra sua poltrona e depois de alguns minutos a adolescente pediu pra eu trocar de lugar com uma amiga dela. A Maria disse pra eu sentar ao lado dela, já que o assento estava vago. Ela me ofereceu um pêssego e balinhas tipo jelly belly. Eu disse que não precisava, mas ela insistiu, e eu acabei aceitando. O que foi ótimo, porque o trem partiu muito cedo e eu só consegui comprar um biscoito para comer durante a viagem, que duraria 10 horas. Detalhe: A Maria não falava inglês, só polonês e alemão. Eu estudei alemão há muuuuuuito tempo, mas é uma língua bem difícil e que eu não pratiquei. Ou seja, esqueci quase tudo. Com o pouco que eu lembrava fomos conversando, e eu consegui entender que dois dos três filhos dela moravam em Berlim, era por isso que ela vinha de lá. Ela também tinha um neto de 6 anos e uma jovem sobrinha que estava estudando engenharia em outra cidade na Alemanha.

Depois de umas 4 horas do início da viagem a Maria desceu em Legnica, sua cidade. Antes de ela ir embora, escrevi-lhe uma cartinha em inglês, agradecendo por tudo, pela companhia dela, pelas frutas e balas, pedindo desculpas pelo meu alemão sofrível e dizendo o quanto eu tinha adorado conhecê-la. Entreguei a carta e tentei falar pra ela pedir pra alguém traduzir. Deixei o meu e-mail também, pra que ela entrasse em contato, se quisesse, e a convidei para vir ao Brasil com a família. Nunca recebi nenhuma resposta, nem dela nem de algum parente. Não sei se alguém traduziu mesmo a minha carta, se ela a guardou ou a perdeu. Ou até jogou fora. Não me importo. Foi tão carinhosa a forma como ela cuidou de mim naquele trem, como tentou entender o que eu falava, misturando um péssimo alemão com inglês. A maneira como ela me agradeceu por eu tê-la ajudado com a bagagem, isso eu nuca esquecerei. Lembro que no final da carta escrevi que mesmo que não a visse mais, nunca me esqueceria dela. E não vou.

 A Asa foi uma japonesa de 21 anos que conheci em Cracóvia (aliás, conheci tanta gente legal nessa cidade). Na verdade, nos conhecemos na saída do campo de concentração de Auschwitz. Não bastasse o clima pesado do local, não conseguíamos entender as placas em polonês e descobrir onde deveríamos tomar o ônibus para voltar à cidade. Foi esse sentimento mútuo, de se sentir perdido em todos os sentidos, que nos fez falar uma com a outra e nos uniu no objetivo de encontrar o caminho de volta. Encontramos e voltamos conversando. Saímos da estação e continuamos conversando até o centro medieval. Como estávamos viajando sozinhas, foi bom termos, a princípio, a companhia uma da outra pra tirar fotos. Mas acabou que quando percebemos, estávamos sentadas na praça principal há umas duas horas, conversando sobre nossas vidas. Era a primeira viagem que ela fazia sozinha, e apesar de estar conhecendo "lugares maravilhosos", ela se sentia perdida de vez em quando, perguntava a si mesma o que estava fazendo ali. Eu, coincidentemente,  fiz a minha primeira viagem sozinha ao exterior com uma idade próxima, e comecei a contá-la todas as coisas boas que aquela viagem tinha me trazido. Dei muitos conselhos, falei das experiências e das pessoas que conheci. Ela me agradeceu, disse que a conversa tinha lhe feito um bem danado e que ela se sentia mais aliviada. Eu contei também que eu partiria pra Praga no dia seguinte à noite; meu trem saía da estação às 22h15. Ela disse que iria lá se despedir de mim.


 Na tarde seguinte começou a chover bastante na cidade, e como se não bastasse, roubaram o meu guarda-chuva no albergue. Fui andando até a estação sob raios e trovões, e cheguei lá encharcada. Naquela amolação toda eu até tinha esquecido da promessa que a Asa tinha me feito. O trem chegou uns 10 minutos antes e quando eu coloquei o pé no primeiro degrau pra subir escutei alguém me chamando. Quando olhei, lá estava ela, correndo e toda encharcada também. Ela realmente foi lá só pra me dar um abraço, só pra se despedir de mim. Olha, só teria sido melhor se na verdade tivesse sido o grande amor da minha vida a fazer isso, mas eu fiquei bastante tocada com o gesto dela!


São exatamente essas coisas que fazem as viagens valerem a pena. É conhecer pessoas como a Maria e Asa que me motiva a juntar todo o meu dinheirinho pra viajar, em vez de gastá-lo em coisas supérfluas. São essas experiências que tornam a viagem uma recompensa... Experiências que me fazem crescer, me tornam mais confiantes e tolerantes, me mostram novos caminhos, me fazem sorrir mesmo em momentos difíceis.

Como viajar sozinha mudou minha vida

Eu era extremamente tímida, insegura e complexada. EXTREMAMENTE. Ao conversar com um pequeno grupo de amigos, eles frequentemente tinham de aproximar os ouvidos da minha boca, a fim de escutar o que eu falava com a minha voz baixa. Sempre fui boa aluna (com exceção de física e educação física), mas NUNCA, durante as  aulas, levantei a mão para responder a perguntas que valiam pontos, mesmo sabendo as respostas. Pensar em levantar a mão e ser, por alguns segundos apenas, o centro das atenções, fazia o meu corpo queimar e suar exacerbadamente e o meu coração acelerar e bater tão forte a ponto de fazer o peito doer. Eu não contava pra minha melhor amiga os meus segredos, tinha medo de passar por ridículo. Era boa ouvinte, mas péssima para falar qualquer coisa, para me expressar em público (mesmo que esse público fosse composto apenas pela minha mãe ou minha melhor amiga). Ou seja, em um grupo de pessoas eu era o perfil mais improvável de alguém que viajaria sozinho.

Mas a minha timidez excessiva fazia com que eu tivesse muito tempo sozinha, comigo mesma. Isso não se desdobrou em autoconhecimento, hoje vejo que sabia muito pouco sobre mim mesma. Mas eu aprendi a ficar sozinha. Quando, lá pelos 15, 16 anos, as companhias para ir ao cinema e ao teatro começaram a furar, me deixando frustrada por não ver filmes e peças que eu queria tanto, decidi fazer esses programas sozinhas se não tivesse com quem ir. Passei a frequentar museus sozinha, e até mesmo o maracanã (Flamengo!). Não era bom fazer esses passeios sem companhia, mas era pior ainda ficar frustrada por não fazê-los. 

Então veio a vontade de conhecer Machu Picchu (e o salar do Uyuni, o deserto do Atacama e o mundo todo!), e também aquela decepção que crescia a cada ano com planos de viagens com amigos que não davam certo. Nas minhas pesquisas li tantos relatos de pessoas que foram sozinhas que comecei a considerar a ideia. Aos 22 anos decidi: iria mochilar pela Bolívia, Peru e Chile comigo mesma. Ninguém acreditou. Meus amigos ficaram "escandalizados" e os meus pais, desesperados. Como uma menina de aparência frágil e delicada (apesar de alta), que mal abria a boca e tinha muita dificuldade para fazer qualquer pessoa a 10 centímetros de distância ouvir a sua voz, que era considerada um bicho do mato em relacionamentos interpessoais, como essa menina iria viajar sozinha? Como ela ia pedir informações na rua, como ia pedir comida? E o perigo? O mundo é perigoso, ir sozinha pra outro país é muito arriscado.
Não adiantou, eu estava muito empolgada e focada. Pesquisei muito, li muito, tinha noção de todos os passeios, trajetos a serem feitos (e que delícia é o planejamento de uma viagem, né?). A viagem seria feita. Estava tão entusiasmada que não tive tempo para sentir medo.

Até que chegou o dia da viagem. E no momento em que estava me despedindo dos meus pais no aeroporto me dei tempo para sentir medo. E comecei a chorar. Desesperadamente. Ali a ficha caiu, me toquei que aquilo tudo era uma loucura (eu não tinha sequer feito reservas de hospedagem, mas isso é assunto pra outras postagens) e que eu não era capaz desse feito. Falei que ia desistir. Para minha surpresa, a minha mãe, que até então estava super preocupada e pedindo pra eu reconsiderar essa viagem, me disse firmemente que eu deveria embarcar e viver aquilo. Ela viu como planejei, como me dediquei àquela viagem, e pensava que seria bom eu concluir o que havia começado. Que seria uma boa experiência pra mim e que aquilo tudo ia me fazer crescer. E ela estava certíssima.

Foram 21 dias descobrindo paisagens lindas e mágicas, me enriquecendo culturalmente, conhecendo mais de mim mesma e percebendo o quanto eu era capaz de enfrentar adversidades. Lidei com altitude sickness (não conheci até hoje alguém que tenha passado tão mal com os efeitos da altitude quanto eu), medos, bloqueios de estradas que acabaram com o meu planejamento e até morte de uma pessoa recém conhecida. E foi quando eu me achava muito fraca que me descobri forte. A vida é assim mesmo, se a gente não sair da zona de conforto não vai evoluir.

Voltei pra casa com os cabelos maltratados, a pele curtida de sol e a boca super ressecada (tentar sorrir pras fotos já fazia os meus lábios sangrarem). Resumindo, eu estava fisicamente um bagaço, mas todas as pessoas que me encontraram nos dias seguintes falaram que eu parecia muito mais bonita. É que eu voltei também mais confiante, empoderada e sentindo que o mundo era meu. Isso mudou tudo. Depois desse mochilão me aventurei outras vezes sozinha pela Europa, África e mais um pouco da América do Sul. Cada viagem foi uma experiência única, mais aprendizado e uma evolução pessoal.

Eu ainda me considero tímida e tenho algumas inseguranças, muitas pessoas dizem que falo baixo. Mas não sou mais aquela menina extremamente complexada, aquele bicho do mato que não conseguia se fazer ouvir, não conseguia enfrentar situações simples, se privava de tantas coisas boas e desejadas por medo de passar por ridículo. Quem me conheceu nos últimos anos não consegue acreditar na pessoa que eu era quando conto sobre a minha evolução.

Viajar sozinha acabou sendo a terapia que eu sempre precisei fazer para me livrar das minhas inseguranças e dos meus complexos, para criar uma autoestima. Viajar foi o melhor remédio que já tomei, e sempre indico essa pílula para quem está ao meu redor. Viajar abre a mente, nos torna mais flexíveis, nos dá conhecimento, nos presenteia com pessoa incríveis que encontramos pelo caminho (e até amores!), cria um milhão de memórias gostosas que vamos ter pela vida toda. E é muito ruim se privar dessa experiência por falta de companhia. Não é ruim viajar sozinho, o ruim é não viajar.

Criei esse blog com a intenção de contar as minhas aventuras de viagens e o quanto elas mudaram a minha vida, me tornando mais forte e confiante. Espero que possa ajudar quem um dia venha parar aqui por acaso. Pra você eu digo: vá viajar! Sozinho ou acompanhado!