Tenho uma
confissão a fazer: na minha primeira viagem sozinha esquematizei o que queria
conhecer e tentei seguir o roteiro à risca. Não deu por quatro motivos: 1. Eu
tive o altitude sickness e fiquei
muito mal pelos 6 ou 7 primeiros dias. Não fiquei presa em quarto de hotel por
conta disso; todos os dias, entre muitas dores de cabeça e vômitos, eu saía e
fazia um passeio, mas não tinha disposição pra fazer tudo correndo e caber no
meu tempo. 2. Cusco me conquistou. Ainda hoje é uma das cidades que mais gostei
de conhecer como viajante, e por isso acabei mudando os planos e ficando um dia
a mais lá. 3. Naquela época vivia tendo bloqueio de estradas na Bolívia por
conta de alguma manifestação. Em decorrência disso, não consegui seguir de
Uyuni pra Sucre e tive que voltar para La Paz. Por lá, o trajeto demoraria bem
mais e eu tinha data para estar em Santa Cruz de La Sierra, pra tomar o voo de
volta pro Brasil. 4. Talvez um dia eu fale sobre o quarto motivo, mas neste
momento sinto que ele não cabe neste texto.
Por isso,
apesar de toda a revolução, divisão de águas que essa primeira viagem solo
representou pra mim, voltei arrasada porque não tinha conseguido visitar um
museu, caminhar por um bairro, fazer um passeio de bicicleta.
Apesar do meu
espírito meio subversivo e revolucionário, acho que ainda sou um pouco aquela
pessoa que às vezes tenta seguir tudo à risca, “andar na linha”, ter (quase)
tudo sob controle. E naquela época eu era mais. Viajar me ensinou a relaxar
mais, deixar as coisas fluírem, aceitar que nem tudo sairá como eu planejo e
não há nada de errado nisso. Experimentei vários momentos em que deixei de
fazer algo que eu tinha programado pra me jogar no fluxo do que se apresentava
a mim e, sério, essas experiências foram ótimas!
Em Paris
encontrei uma carioca que tinha conhecido na comunidade de mochileiros do
Orkut. A gente brinca que deitou em todas as gramas da cidade, então podemos
indicar as melhores pra você observar os arredores e as pessoas, filosofar e
ficar devaneando. “Perdemos” algumas horas em que poderíamos ter conhecido
alguns museus a mais, ganhamos algumas horas com conversas supergostosas,
gargalhadas, micos, vinhos, observação de turistas e locais, descanso para os
pés que desbravavam a Cidade Luz. Sentimos o espírito parisiense. A gente andou
muito, explorou muito, mas também relaxou e se divertiu horrores. Viajar não é
pra isso também?
Nesse mesmo
mochilão pela Europa, em Roma reencontrei um amigo que tinha conhecido em
Londres. No hostel conhecemos outros dois amigos brasileiros. Roma era a última
cidade de nós quatro, estávamos todos cansados (a minha eurotrip foi de uns 45
dias) e com os últimos euros pra gastar. Um calorzão danado, muitas filas pra
várias atrações e aí o que a gente fez? Parou em praticamente todas as
esquinas, todas as praças da cidade pra tomar os gelati maravilhosos da Itália.
Do Vaticano só conheci a praça principal e a Basílica de São Pedro, que por
serem abertos e amplos tinham filas menores e rápidas. As filas para os museus
de lá duravam umas 3 horas... Mas guardo com muito carinho a lembrança de
termos sentado em uma calçada de uma rua que eu não saberia localizar no mapa
pra tomar o milionésimo sorvete, entre muitas reflexões sobre a vida e risadas
e uma iluminação linda que o sol se pondo colocava sobre a cidade.
Na Cidade do
Cabo eu subi a Table Mountain com uma brasileira e uma suíça que eu tinha
conhecido no hostel. Minha intenção era fazer umas trilhas que havia lá, mas
uma delas estava se recuperando de uma cirurgia no pé e a outra não tinha a
intenção de fazer as caminhadas. Eu ia me separar delas, mas decidi não fazer
as trilhas e acompanhá-las nos outros passeios. Naquele dia, sendo honesta, ter
feito isso me consumiu um pouco. Pensei que ia me arrepender por muitos anos
por ter deixado de fazer as trilhas da Table Mountain. O que eu não sabia
naquele instante em que, com um certo receio, decidi permanecer com elas para
outros passeios e desistir das trilhas, era que na verdade eu estava ganhando duas
amigas pro resto da vida. O que nós três vivemos juntas nos dias seguintes, e
em parte porque eu preferi continuar com elas, foi inesquecível e nos uniu
bastante. Já nos visitamos e nos falamos quase todos os dias, contando as conquistas
e as agruras que nos acontecem.
Viajar é sobre
(se) conhecer, aprender, absorver, e também sobre relaxar e deixar as coisas
acontecerem além daquilo que planejamos. É entender que a vida num todo, e não
só a viagem em si, é sobre isso: você nunca vai ter controle sobre tudo e
tentar ter esse controle vai gerar um desgaste emocional que não vale a pena.
Então programe, sim, a sua viagem. Mas não se estresse pra que tudo saia
conforme o roteiro. Se jogue fora dele também, dê uma chance pro que você não
esperava, se abra pra experiências que você não imaginou. Relaxe e viva!

