quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Se jogue na viagem e relaxe!



Tenho uma confissão a fazer: na minha primeira viagem sozinha esquematizei o que queria conhecer e tentei seguir o roteiro à risca. Não deu por quatro motivos: 1. Eu tive o altitude sickness e fiquei muito mal pelos 6 ou 7 primeiros dias. Não fiquei presa em quarto de hotel por conta disso; todos os dias, entre muitas dores de cabeça e vômitos, eu saía e fazia um passeio, mas não tinha disposição pra fazer tudo correndo e caber no meu tempo. 2. Cusco me conquistou. Ainda hoje é uma das cidades que mais gostei de conhecer como viajante, e por isso acabei mudando os planos e ficando um dia a mais lá. 3. Naquela época vivia tendo bloqueio de estradas na Bolívia por conta de alguma manifestação. Em decorrência disso, não consegui seguir de Uyuni pra Sucre e tive que voltar para La Paz. Por lá, o trajeto demoraria bem mais e eu tinha data para estar em Santa Cruz de La Sierra, pra tomar o voo de volta pro Brasil. 4. Talvez um dia eu fale sobre o quarto motivo, mas neste momento sinto que ele não cabe neste texto.

Por isso, apesar de toda a revolução, divisão de águas que essa primeira viagem solo representou pra mim, voltei arrasada porque não tinha conseguido visitar um museu, caminhar por um bairro, fazer um passeio de bicicleta.

Apesar do meu espírito meio subversivo e revolucionário, acho que ainda sou um pouco aquela pessoa que às vezes tenta seguir tudo à risca, “andar na linha”, ter (quase) tudo sob controle. E naquela época eu era mais. Viajar me ensinou a relaxar mais, deixar as coisas fluírem, aceitar que nem tudo sairá como eu planejo e não há nada de errado nisso. Experimentei vários momentos em que deixei de fazer algo que eu tinha programado pra me jogar no fluxo do que se apresentava a mim e, sério, essas experiências foram ótimas!

Em Paris encontrei uma carioca que tinha conhecido na comunidade de mochileiros do Orkut. A gente brinca que deitou em todas as gramas da cidade, então podemos indicar as melhores pra você observar os arredores e as pessoas, filosofar e ficar devaneando. “Perdemos” algumas horas em que poderíamos ter conhecido alguns museus a mais, ganhamos algumas horas com conversas supergostosas, gargalhadas, micos, vinhos, observação de turistas e locais, descanso para os pés que desbravavam a Cidade Luz. Sentimos o espírito parisiense. A gente andou muito, explorou muito, mas também relaxou e se divertiu horrores. Viajar não é pra isso também?

Nesse mesmo mochilão pela Europa, em Roma reencontrei um amigo que tinha conhecido em Londres. No hostel conhecemos outros dois amigos brasileiros. Roma era a última cidade de nós quatro, estávamos todos cansados (a minha eurotrip foi de uns 45 dias) e com os últimos euros pra gastar. Um calorzão danado, muitas filas pra várias atrações e aí o que a gente fez? Parou em praticamente todas as esquinas, todas as praças da cidade pra tomar os gelati maravilhosos da Itália. Do Vaticano só conheci a praça principal e a Basílica de São Pedro, que por serem abertos e amplos tinham filas menores e rápidas. As filas para os museus de lá duravam umas 3 horas... Mas guardo com muito carinho a lembrança de termos sentado em uma calçada de uma rua que eu não saberia localizar no mapa pra tomar o milionésimo sorvete, entre muitas reflexões sobre a vida e risadas e uma iluminação linda que o sol se pondo colocava sobre a cidade.

Na Cidade do Cabo eu subi a Table Mountain com uma brasileira e uma suíça que eu tinha conhecido no hostel. Minha intenção era fazer umas trilhas que havia lá, mas uma delas estava se recuperando de uma cirurgia no pé e a outra não tinha a intenção de fazer as caminhadas. Eu ia me separar delas, mas decidi não fazer as trilhas e acompanhá-las nos outros passeios. Naquele dia, sendo honesta, ter feito isso me consumiu um pouco. Pensei que ia me arrepender por muitos anos por ter deixado de fazer as trilhas da Table Mountain. O que eu não sabia naquele instante em que, com um certo receio, decidi permanecer com elas para outros passeios e desistir das trilhas, era que na verdade eu estava ganhando duas amigas pro resto da vida. O que nós três vivemos juntas nos dias seguintes, e em parte porque eu preferi continuar com elas, foi inesquecível e nos uniu bastante. Já nos visitamos e nos falamos quase todos os dias, contando as conquistas e as agruras que nos acontecem. 

Viajar é sobre (se) conhecer, aprender, absorver, e também sobre relaxar e deixar as coisas acontecerem além daquilo que planejamos. É entender que a vida num todo, e não só a viagem em si, é sobre isso: você nunca vai ter controle sobre tudo e tentar ter esse controle vai gerar um desgaste emocional que não vale a pena. Então programe, sim, a sua viagem. Mas não se estresse pra que tudo saia conforme o roteiro. Se jogue fora dele também, dê uma chance pro que você não esperava, se abra pra experiências que você não imaginou. Relaxe e viva!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

As Artes e de onde vem essa vontade de conhecer o mundo

Eu não sei quanto a vocês, mas eu sei exatamente como surgiu a minha vontade de sair vendo as cores do mundo: aos 6 anos, minha mãe falou que ia passar A Noviça Rebelde na TV, um filme que ela tinha assistido quando criança e que era um dos preferidos dela. Ela me falou sobre as crianças cantantes e eu fui ficando encantada. Disse também que elas precisaram se esconder em um cemitério, e aí eu fiquei com medo. Não queria ver o filme porque eu tinha medo de cemitérios. Só que ela me prometeu que eu não me assustaria e que amaria assistir com ela. Promessa cumprida, A Noviça Rebelde se tornou o filme da minha infância e moldou a minha vida e gostos em muitos pontos.

A partir do filme eu passei a me interessar pela Segunda Guerra Mundial, passei a ler tudo sobre o Holocausto e estudei alemão (só o básico, que eu já não lembro quase nada). E sonhei em viajar para a Áustria e Salzburg. Demais. Comecei a perder meus olhos sobre a Áustria nos mapas, e o olhar se expandiu para os outros lugares. Eu não queria mais conhecer só a Áustria, queria conhecer todos aqueles formatos de países, todas aquelas palavras que davam nomes às cidades. Por isso, não tenho dúvidas: A Noviça Rebelde foi a sementinha que fez brotar o meu espírito viajante!

E desde então as artes têm influenciado as minhas viagens. Nem sempre unicamente decisivas para a escolha do destino, mas sempre com algum peso, sendo uma atração. Por exemplo, ir a Buenos Aires se tornou mais interessante depois dos filmes do Ricardo Darin e do Juan José Campanella. Mendoza se tornou mágica ao som da Mercedes Sosa ("para quien lo ha vivido en Mendoza otoño son cosas que inventó el amor"), especialmente porque fui no outono e ele pareceu de fato uma criação do amor. Li as ladeiras de Valparaíso nas palavras do Neruda e da Isabel Allende. Sonhei no Café Deux Moulins que nem a Amélie. Corri por Berlim como a Lola. Subi as escadas do Museu de Arte da Filadélfia que nem o Rocky. Vi a música do álbum Physical graffiti no prédio da St. Mark's Place (NY). Viajei nas paisagens da Terra Média da Nova Zelândia. Refleti na Praga do Kafka (e preciso voltar pra cidade com o olhar do Kundera, lido só depois). Fiz tantas coisas influenciada por livros, filmes e músicas, e quero fazer muito mais!

Quero me enterrar nas areias de Acapulco que nem a Turma do Chaves e me perder na Nápoles da Elena Ferrante, por exemplo. 

É impressionante como as Artes nos fazem viajar, tanto nas reflexões e pensamentos, quanto nos deslocando fisicamente (e mentalmente) para lugares diferentes do nosso. Apresentam o mundo ao nosso olhar e, assim, nos convidam a desbravá-lo. E eu quero continuar pisando nessas terras que leio, vejo e ouço.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Amado Mapa-mundi,


Tenho um sentimento fortíssimo por você desde que me entendo por gente. Não se faça de rogado, acho que já percebeu. Eu o olhava e era inundada por um encantamento indescritível. Aprendi a ler e comecei a decorar os países que você me mostrava. Acredita que me zoam até hoje por eu saber localizar em você o Laos e o Camboja? Eu pensava nas suas capitais e à noite elas me visitavam. Aliás, sonhar foi a experiência que você mais me fez viver. Dormindo e acordada. Eu me perdia em devaneios no seu colorido, até que um dia eu mesma comecei a dar cor a esses sonhos. Deixei de tocá -lo só com os dedos e fui tocar também com os meus pés. Obrigada pela companhia, pelas fantasias, pelo conhecimento e por me apresentar ao mundo!

Afetuosamente,

Viajante.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

As pessoas que encontramos no caminho

Como já disse, viajar é muito bom, um remédio que sempre recomendo para a vida de todo mundo. É maravilhoso visitar lugares diferentes, descobrir histórias e História, conhecer novas culturas, provar comidas desconhecidas, andar despreocupado. Além de tudo isso, uma das melhores coisas de viajar são as pessoas com quem vamos cruzar. Podem tornar-se amigas ou não, mas de alguma forma marcam a nossa caminhada, compartilham com a gente momentos únicos e ajudam a mudar a nossa visão do mundo. Escrevi o texto abaixo em 2010, sobre duas pessoa que conheci, dentre tantas, e que marcaram a minha vida.

Viajar, em todos e nos mais profundos sentidos dessa palavra, mudou a minha vida. O que quero dizer é que não basta ser um turista, você tem que ser um viajante. Quando me tornei uma viajante passei a ver tudo com outros olhos, as histórias, os prédios, as paisagens, os hábitos, as comidas, as músicas, as danças. Me tornei mais tolerante e confiante (especialmente depois que passei a viajar sozinha) e me dei conta de que os "cartões postais" são apenas detalhes. O que vale mesmo são as experiências que você vive, as pessoas que você conhece. E é isso que me fez querer botar a mochila nas costas e viajar mais e mais. 
Algumas pessoas que conheci vou levar pra vida toda. Uns como amigos muito próximos, outros como aqueles que só vou falar de vez em quando, mas que também são especiais e vão ficar pra sempre. De boa parte não peguei contato algum e provavelmente não vou ver nunca mais, o que não diminui a importância que tiveram na minha jornada. Tem uns até que espero não encontrar novamente, porque não estamos livres de conhecer pessoas chatas, mal educadas e inconvenientes numa viagem. Só que elas também me fizeram aprender algo. E há, além disso, aquelas com as quais eu nunca troquei uma palavra; só as observei de longe, num momento tão especial, que elas nem imaginam que sempre estarão nas minhas lembranças, um ser que mora do outro lado do mundo e que elas não têm idéia de que exista. 
Tem umas que eu conheci nos albergues, companheiras de quartos, ou de café da manhã, ou de bar. Tem outras que conheci em filas, sentada numa praça, nos trens, nos aviões, nos free walking tours. Tem muito brasileiro que conheci na internet, antes de partir, e encontrei por lá. Foi muita gente, e freqüentemente tenho que fazer esforço pra lembrar de (quase) todas.
      

Senti vontade de compartilhar (com quem quer que leia isso) a experiência de ter conhecido duas pessoas na minha viagem à Europa. Uma é daquelas que eu provavelmente nunca mais verei, e a outra eu falo de vez em quando.

A Maria era uma senhora (de uns 60 anos) polonesa que encontrei num trem de Berlim a Cracóvia. Ela estava sentada ao meu lado, e eu a ajudei a colocar a mala no bagageiro. Acontece que ela havia sentado no lugar errado, o assento correto era o da frente e rolou uma pequena confusão entre ela e a adolescente "dona" do lugar. A Maria então foi pra sua poltrona e depois de alguns minutos a adolescente pediu pra eu trocar de lugar com uma amiga dela. A Maria disse pra eu sentar ao lado dela, já que o assento estava vago. Ela me ofereceu um pêssego e balinhas tipo jelly belly. Eu disse que não precisava, mas ela insistiu, e eu acabei aceitando. O que foi ótimo, porque o trem partiu muito cedo e eu só consegui comprar um biscoito para comer durante a viagem, que duraria 10 horas. Detalhe: A Maria não falava inglês, só polonês e alemão. Eu estudei alemão há muuuuuuito tempo, mas é uma língua bem difícil e que eu não pratiquei. Ou seja, esqueci quase tudo. Com o pouco que eu lembrava fomos conversando, e eu consegui entender que dois dos três filhos dela moravam em Berlim, era por isso que ela vinha de lá. Ela também tinha um neto de 6 anos e uma jovem sobrinha que estava estudando engenharia em outra cidade na Alemanha.

Depois de umas 4 horas do início da viagem a Maria desceu em Legnica, sua cidade. Antes de ela ir embora, escrevi-lhe uma cartinha em inglês, agradecendo por tudo, pela companhia dela, pelas frutas e balas, pedindo desculpas pelo meu alemão sofrível e dizendo o quanto eu tinha adorado conhecê-la. Entreguei a carta e tentei falar pra ela pedir pra alguém traduzir. Deixei o meu e-mail também, pra que ela entrasse em contato, se quisesse, e a convidei para vir ao Brasil com a família. Nunca recebi nenhuma resposta, nem dela nem de algum parente. Não sei se alguém traduziu mesmo a minha carta, se ela a guardou ou a perdeu. Ou até jogou fora. Não me importo. Foi tão carinhosa a forma como ela cuidou de mim naquele trem, como tentou entender o que eu falava, misturando um péssimo alemão com inglês. A maneira como ela me agradeceu por eu tê-la ajudado com a bagagem, isso eu nuca esquecerei. Lembro que no final da carta escrevi que mesmo que não a visse mais, nunca me esqueceria dela. E não vou.

 A Asa foi uma japonesa de 21 anos que conheci em Cracóvia (aliás, conheci tanta gente legal nessa cidade). Na verdade, nos conhecemos na saída do campo de concentração de Auschwitz. Não bastasse o clima pesado do local, não conseguíamos entender as placas em polonês e descobrir onde deveríamos tomar o ônibus para voltar à cidade. Foi esse sentimento mútuo, de se sentir perdido em todos os sentidos, que nos fez falar uma com a outra e nos uniu no objetivo de encontrar o caminho de volta. Encontramos e voltamos conversando. Saímos da estação e continuamos conversando até o centro medieval. Como estávamos viajando sozinhas, foi bom termos, a princípio, a companhia uma da outra pra tirar fotos. Mas acabou que quando percebemos, estávamos sentadas na praça principal há umas duas horas, conversando sobre nossas vidas. Era a primeira viagem que ela fazia sozinha, e apesar de estar conhecendo "lugares maravilhosos", ela se sentia perdida de vez em quando, perguntava a si mesma o que estava fazendo ali. Eu, coincidentemente,  fiz a minha primeira viagem sozinha ao exterior com uma idade próxima, e comecei a contá-la todas as coisas boas que aquela viagem tinha me trazido. Dei muitos conselhos, falei das experiências e das pessoas que conheci. Ela me agradeceu, disse que a conversa tinha lhe feito um bem danado e que ela se sentia mais aliviada. Eu contei também que eu partiria pra Praga no dia seguinte à noite; meu trem saía da estação às 22h15. Ela disse que iria lá se despedir de mim.


 Na tarde seguinte começou a chover bastante na cidade, e como se não bastasse, roubaram o meu guarda-chuva no albergue. Fui andando até a estação sob raios e trovões, e cheguei lá encharcada. Naquela amolação toda eu até tinha esquecido da promessa que a Asa tinha me feito. O trem chegou uns 10 minutos antes e quando eu coloquei o pé no primeiro degrau pra subir escutei alguém me chamando. Quando olhei, lá estava ela, correndo e toda encharcada também. Ela realmente foi lá só pra me dar um abraço, só pra se despedir de mim. Olha, só teria sido melhor se na verdade tivesse sido o grande amor da minha vida a fazer isso, mas eu fiquei bastante tocada com o gesto dela!


São exatamente essas coisas que fazem as viagens valerem a pena. É conhecer pessoas como a Maria e Asa que me motiva a juntar todo o meu dinheirinho pra viajar, em vez de gastá-lo em coisas supérfluas. São essas experiências que tornam a viagem uma recompensa... Experiências que me fazem crescer, me tornam mais confiantes e tolerantes, me mostram novos caminhos, me fazem sorrir mesmo em momentos difíceis.

Como viajar sozinha mudou minha vida

Eu era extremamente tímida, insegura e complexada. EXTREMAMENTE. Ao conversar com um pequeno grupo de amigos, eles frequentemente tinham de aproximar os ouvidos da minha boca, a fim de escutar o que eu falava com a minha voz baixa. Sempre fui boa aluna (com exceção de física e educação física), mas NUNCA, durante as  aulas, levantei a mão para responder a perguntas que valiam pontos, mesmo sabendo as respostas. Pensar em levantar a mão e ser, por alguns segundos apenas, o centro das atenções, fazia o meu corpo queimar e suar exacerbadamente e o meu coração acelerar e bater tão forte a ponto de fazer o peito doer. Eu não contava pra minha melhor amiga os meus segredos, tinha medo de passar por ridículo. Era boa ouvinte, mas péssima para falar qualquer coisa, para me expressar em público (mesmo que esse público fosse composto apenas pela minha mãe ou minha melhor amiga). Ou seja, em um grupo de pessoas eu era o perfil mais improvável de alguém que viajaria sozinho.

Mas a minha timidez excessiva fazia com que eu tivesse muito tempo sozinha, comigo mesma. Isso não se desdobrou em autoconhecimento, hoje vejo que sabia muito pouco sobre mim mesma. Mas eu aprendi a ficar sozinha. Quando, lá pelos 15, 16 anos, as companhias para ir ao cinema e ao teatro começaram a furar, me deixando frustrada por não ver filmes e peças que eu queria tanto, decidi fazer esses programas sozinhas se não tivesse com quem ir. Passei a frequentar museus sozinha, e até mesmo o maracanã (Flamengo!). Não era bom fazer esses passeios sem companhia, mas era pior ainda ficar frustrada por não fazê-los. 

Então veio a vontade de conhecer Machu Picchu (e o salar do Uyuni, o deserto do Atacama e o mundo todo!), e também aquela decepção que crescia a cada ano com planos de viagens com amigos que não davam certo. Nas minhas pesquisas li tantos relatos de pessoas que foram sozinhas que comecei a considerar a ideia. Aos 22 anos decidi: iria mochilar pela Bolívia, Peru e Chile comigo mesma. Ninguém acreditou. Meus amigos ficaram "escandalizados" e os meus pais, desesperados. Como uma menina de aparência frágil e delicada (apesar de alta), que mal abria a boca e tinha muita dificuldade para fazer qualquer pessoa a 10 centímetros de distância ouvir a sua voz, que era considerada um bicho do mato em relacionamentos interpessoais, como essa menina iria viajar sozinha? Como ela ia pedir informações na rua, como ia pedir comida? E o perigo? O mundo é perigoso, ir sozinha pra outro país é muito arriscado.
Não adiantou, eu estava muito empolgada e focada. Pesquisei muito, li muito, tinha noção de todos os passeios, trajetos a serem feitos (e que delícia é o planejamento de uma viagem, né?). A viagem seria feita. Estava tão entusiasmada que não tive tempo para sentir medo.

Até que chegou o dia da viagem. E no momento em que estava me despedindo dos meus pais no aeroporto me dei tempo para sentir medo. E comecei a chorar. Desesperadamente. Ali a ficha caiu, me toquei que aquilo tudo era uma loucura (eu não tinha sequer feito reservas de hospedagem, mas isso é assunto pra outras postagens) e que eu não era capaz desse feito. Falei que ia desistir. Para minha surpresa, a minha mãe, que até então estava super preocupada e pedindo pra eu reconsiderar essa viagem, me disse firmemente que eu deveria embarcar e viver aquilo. Ela viu como planejei, como me dediquei àquela viagem, e pensava que seria bom eu concluir o que havia começado. Que seria uma boa experiência pra mim e que aquilo tudo ia me fazer crescer. E ela estava certíssima.

Foram 21 dias descobrindo paisagens lindas e mágicas, me enriquecendo culturalmente, conhecendo mais de mim mesma e percebendo o quanto eu era capaz de enfrentar adversidades. Lidei com altitude sickness (não conheci até hoje alguém que tenha passado tão mal com os efeitos da altitude quanto eu), medos, bloqueios de estradas que acabaram com o meu planejamento e até morte de uma pessoa recém conhecida. E foi quando eu me achava muito fraca que me descobri forte. A vida é assim mesmo, se a gente não sair da zona de conforto não vai evoluir.

Voltei pra casa com os cabelos maltratados, a pele curtida de sol e a boca super ressecada (tentar sorrir pras fotos já fazia os meus lábios sangrarem). Resumindo, eu estava fisicamente um bagaço, mas todas as pessoas que me encontraram nos dias seguintes falaram que eu parecia muito mais bonita. É que eu voltei também mais confiante, empoderada e sentindo que o mundo era meu. Isso mudou tudo. Depois desse mochilão me aventurei outras vezes sozinha pela Europa, África e mais um pouco da América do Sul. Cada viagem foi uma experiência única, mais aprendizado e uma evolução pessoal.

Eu ainda me considero tímida e tenho algumas inseguranças, muitas pessoas dizem que falo baixo. Mas não sou mais aquela menina extremamente complexada, aquele bicho do mato que não conseguia se fazer ouvir, não conseguia enfrentar situações simples, se privava de tantas coisas boas e desejadas por medo de passar por ridículo. Quem me conheceu nos últimos anos não consegue acreditar na pessoa que eu era quando conto sobre a minha evolução.

Viajar sozinha acabou sendo a terapia que eu sempre precisei fazer para me livrar das minhas inseguranças e dos meus complexos, para criar uma autoestima. Viajar foi o melhor remédio que já tomei, e sempre indico essa pílula para quem está ao meu redor. Viajar abre a mente, nos torna mais flexíveis, nos dá conhecimento, nos presenteia com pessoa incríveis que encontramos pelo caminho (e até amores!), cria um milhão de memórias gostosas que vamos ter pela vida toda. E é muito ruim se privar dessa experiência por falta de companhia. Não é ruim viajar sozinho, o ruim é não viajar.

Criei esse blog com a intenção de contar as minhas aventuras de viagens e o quanto elas mudaram a minha vida, me tornando mais forte e confiante. Espero que possa ajudar quem um dia venha parar aqui por acaso. Pra você eu digo: vá viajar! Sozinho ou acompanhado!